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Definir um estilo como o post-punk, por exemplo, é uma tarefa que levariam vários autores a determinarem seus textos. A construir um muro aqui. A levantar torres ali, cavar fossos, drenar rios e principalmente construir seu castelo de lorde medieval dono único do assunto e autoridade incontestável.
Isso é o que eu mais detestaria fazer. Basta-me discorrer sobre aquilo que efetivamente vivi no Brasil dos anos 80 acrescido do desenvolvimento posterior nos 90s e 00s e, daquilo que, com o advento da internet, me possibilitou sanar duvidas e preencher lacunas.
Em 1980 eu tinha 14 anos de idade e em 1989 eu tinha 23, durante esses 10 anos estive intimamente ligado a tudo que foi lançado de rock no mundo. Também fui vocalista em várias bandas de 1983 a 1989. Posso não ter ouvido certas bandas , mas com toda certeza ouvi falar delas. O aspecto música nunca foi para mim o mais importante. Sempre houve a moda, a literatura, cinema, história em quadrinhos, as artes plásticas e diversos outros fatores que me impediram de enxergar o post-punk só como um filhote dos Sex Pistols como querem alguns, mas compreendendo esse post-punk como uma radical mudança de atitude que dividiu mesmo os fãs de rock que, até então eram virtualmente uma grande e única tribo universal. Até o advento dos Sex Pistols bastava ser roqueiro. Depois deles era necessário o emprego de termos específicos para determinar o que você realmente ‘era’.
Jovens que eram headbangers por absoluta ausência de opção tornaram-se new wavers da noite para o dia. Cabelos foram cortados
bem curtos, batas indianas e alpargatas de couro foram jogadas no lixo. O guarda roupa tornou-se mais urbano com acessórios militares, enfim a geração dos 80 tomou em suas próprias mãos a tarefa de obliterar a ‘velha ordem’ e encarnar a ‘nova onda’. Sem o saber, milhões de jovens no planeta passaram a seguir as tendências ditadas pela estilista Vivienne Westwood, o punk era punk de butique já no berço, desde o nascedouro.
Entre1984 e 1985 posso dizer que haviam duas facções distintas que dividiam os assim chamados ‘roqueiros’. Os roqueiros à moda antiga, aficionados de bandas progressivas e de bandas não progressivas, mas musicalmente virtuosas e as representantes do Heavy Metal que sugeriam ser o futuro do rock tradicional de um lado. Para esse primeiro grupo os 80 são lembrados pela musica de Yngwie Malmsteen, as bandas tipo Van Halen, UFO, Scorpions, Accept e por aí vão.
E do outro lado os que curtiam as bandas new wave, recém chegadas ao cenário pop e ostentando uma atitude que lembrava as garage bands do 77 punk, mas com características que variavam entre a world music e o funk, algo futurista e frio, drum machines e reaggae, gélidos teclados e uma promessa Techno. Em todo caso bandas desprezadas pelo primeiro grupo que continuavam seu culto aos grandes instrumentistas e à musica com características sinfônicas.
Para o segundo grupo a vida se transformara em uma animada festa. Todos os dias o telefone tocava e um amigo falava da chegada às lojas de mais uma desconhecida, novíssima e surpreendente banda. Eram Tom Tom Club, The Smiths, Stray Cats, Nina Hagen, Dexy’s Midnight Runners, New Order e a lista aumentava a cada dia com novidades chegadas dos USA e da Inglaterra, mas também desse nosso Brazil sem porteiras: Paralamas do Sucesso, IRA!, As Mercenárias, Ratos de Porão, Magazine, Kid Abelha, Plebe Rude, Camisa de Venus para citar só alguns. Esse segundo grupo por sua vez se subdividiria em dezenas de outros à medida em que a década de 80 chegava ao fim e as outras décadas se sucediam.
O próprio termo post-punk pode nos deter numa tentativa de esclarecer seu significado. Enquanto alguns vão se apegar à nomenclatura ‘positive punk’,outros vão brigar pelo significado de ‘depois’ ou ‘após’ e sabe-se lá quais fundamentalistas de orkut irão cometer atentados terroristas se não reconhecermos suas próprias e chatissimas definições do termo.
Eu diria ‘fuck it’. Nada disso me interessa já que esse blog surge para ser um veiculo do post-punk enquanto uma orientação de resistência cultural, um eco de uma atitude que me parecia ser a única aceitável para mim e que eu queria ver nas pessoas com quem eu me relacionava (amigos ou amantes) nos 80s, nos 90s e também agora.
Num primeiro momento me atenho a postar sobre a década de 80. Um memorial dirão vocês. Tenho mesmo essa necessidade de me
lembrar, de trazer de volta confusos sentimentos e deliciosas recordações, mas reconheço que esse esforço não irá parar por aí. Já agora nesse inicio um tanto disforme tenho me deparado com ramificações que desembocam na ambient music e ethereal dos 90 e 00s e que tem raízes em bandas do inicio dos anos 60, sem falar do psychobilly que retrocede aos 50s e até aos 40s. Que anos 80 que nada.
Vamos juntos viajar pela política ultra-direitista dos anos 70 e pelo socialismo real, pelo muro de Berlim, vamos estudar literatura e relaxar com HQs nada inofensivas, vamos discutir cinema e poesia. Vamos conhecer as escolas de arte e artistas plásticos que desde o fim do século XIX já eram post-punks, entenderemos a importância do teatro, da moda e é claro, ouvir muitas bandas também.
Niilismo, dadaísmo, expressionismo, sado-masoquismo, futurismo, Suprematismo, anarquismo e todos os outros ismos que possibilitaram aos punks 77 protagonizarem o rompimento que foi mais assimilado musicalmente, mas que de maneira alguma se restringe apenas à bandas toscas que tocam com cabelos moicanos e roupas pretas.
Como num patchwork – numa colcha de retalhos – aquilo que é o ‘post-punk’ se nos apresentará muito mais como um painel multifacetado, multicolorido e inacabado, do que num retrato desfocado, em preto e branco e determinado.
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